BOTÂNICA
12/01/2006 Folha On Line
Plantas "arrotam" gás metano, diz estudo
Os
livros de biologia --e provavelmente os modelos climáticos também--
amanheceram hoje precisando de revisão. Cientistas europeus descobriram que as
plantas emitem metano, um importante gás de efeito estufa que, até agora,
achava-se que fosse produzido por microrganismos.
Além de ter revelado um fato totalmente desconhecido sobre a natureza, a
descoberta tem implicações para o combate ao aquecimento global: o grupo
liderado por Frank Keppler, do Instituto Max-Planck de Física Nuclear, na
Alemanha, afirma que até 30% das 600 milhões de toneladas do gás lançadas
anualmente na atmosfera vêm de plantas vivas.
Isso pode ser um problema, porque essa fonte não está incluída na
contabilidade do metano, que os cientistas usam para alimentar seus modelos e
prever como o clima da Terra irá mudar. As principais fontes computadas são
plantações de arroz e a pecuária --o metano é produzido por micróbios que não
usam oxigênio em ruminantes e liberado em seus arrotos e gases intestinais.
Agora, os cientistas precisam ficar de olho também em florestas tropicais, como
a Amazônia, e na maneira como elas reagem ao efeito estufa: os cientistas
descobriram que a emissão de metano (CH4) pelas plantas dobra a cada 10ºC de
aumento na temperatura. Isso pode produzir um mecanismo de retroalimentação
positiva, pelo qual temperaturas altas aumentam a liberação de metano pelas
plantas, o que por sua vez eleva ainda mais a temperatura.
"Não é que haja 30% a mais de metano na atmosfera, mas estamos trocando o
"selo de origem" do gás. Isso é importante para descobrir qual é o
processo e para a maneira como olhamos para a contabilidade dos
gases-estufa", disse Thomas Röckmann, da Universidade de Utrecht
(Holanda), co-autor do estudo. O trabalho sai hoje na revista "Nature".
Segundo Keppler, a principal surpresa foi o fato de ninguém ter descoberto isso
antes. "Isso só tem uma explicação lógica: é conhecimento de
livro-texto que o metano só é produzido em ausência de oxigênio. Geralmente,
e por boas razões, as pessoas acreditam nos livros-texto. E, simplesmente por
essa razão, ninguém examinou esse assunto de perto."
Steven Wofsy, professor de química atmosférica da Universidade Harvard (EUA),
se disse surpreso com a pesquisa. "Se isso estivesse acontecendo de fato na
natureza, nós já teríamos observado. Entretanto, o estudo me parece muito
cuidadoso", afirmou.
Segundo Keppler, as quantidades de metano emitidas por uma planta são tão
baixas que até agora essa emissão tem escapado à detecção, confundindo-se
com o "sinal" do gás já presente na atmosfera e com atividade de
bactérias em folhas, raízes e no solo.
Para pegar as folhas vivas em flagrante soltando o gás, o alemão recorreu a vários
truques espertos de laboratório, como trancafiar as plantas em ambientes sem
metano e bombardear as folhas com raios gama para matar bactérias. Ele diz que
ainda não tem idéia de qual seja o mecanismo responsável pela síntese do CH4,
mas suspeita que a pectina, substância presente na parede celular de células
vegetais, esteja envolvida.
A descoberta ajuda a explicar um aparente paradoxo: por que a taxa de
crescimento do metano atmosférico parece estar caindo apesar do contínuo
aumento da atividade agropecuária: a resposta pode estar no desmatamento das
florestas tropicais.