IMUNOLOGIA
06/01/2006 Estadão.com
Brasil vai produzir vacina contra gripe aviária
São
Paulo - O vírus da gripe aviária, H5N1, chegou nesta semana ao Brasil - via
correio, embalado em uma garrafa térmica de segurança e com três aminoácidos
a menos. As amostras do temido micróbio foram recebidas pelo Instituto Butantã,
em São Paulo, que pretende utilizá-las como matéria-prima para a produção
de vacinas. A expectativa é produzir 20 mil doses ainda neste ano, após testes
de segurança que serão realizados em animais e seres humanos.
O
remetente é o National Institute for Biological Standards and Technology,
laboratório britânico sancionado pela Organização Mundial da Saúde (OMS)
que cultiva e distribui cepas de vírus da gripe para produtores de vacinas no
mundo todo. A cepa recebida pelo Butantã já foi "desarmada"
geneticamente para não causar a gripe aviária - apenas uma reação imunológica,
necessária para que a pessoa fique imunizada contra a doença.
Por
isso, o risco de as amostras causarem uma epidemia é praticamente nulo, segundo
o médico e presidente da Fundação Butantã, Isaias Raw. Sem qualquer cerimônia,
ele tira o recipiente plástico azul que contém o vírus de dentro de uma
geladeira no laboratório. "Ninguém vai ficar doente nem passar a doença
para ninguém", tranqüiliza.
Uma
vez que a garrafa for aberta, entretanto, os cuidados vão aumentar
significativamente. As pesquisas com o vírus e a produção da vacina deverão
ser iniciadas em março, com a reforma de um antigo prédio de 300 metros
quadrados. Ele servirá como laboratório inicial até que a fábrica
definitiva, de 6 mil metros quadrados, fique pronta, em julho. "Não
queremos perder tempo", afirma Raw.
A
obra maior, de R$ 18 milhões, vai abrigar R$ 34 milhões em máquinas e
equipamentos. Uma infra-estrutura que foi pensada pelo governo federal três
anos atrás para a produção da vacina antigripal tradicional - que hoje o
Brasil importa. Com o surgimento da gripe aviária, uma parte da fábrica agora
será destinada à produção da vacina contra o H5N1. Segundo Raw, o processo
de produção é o mesmo, só mudam as cepas dos vírus.
Estoque
de ovos
Além
dos equipamentos de última geração, o instituto também vai precisar de um
gigantesco estoque de ovos. O primeiro passo para a produção da vacina é a
reprodução do vírus em embriões de galinha. Segundo Raw, a relação é de
um ovo para cada dose de vacina. "Ou seja, para produzir 20 mil doses,
vamos precisar de 20 mil ovos."
Um
das principais questões que a equipe terá de resolver é o que fazer com os
ovos no fim da linha. Apenas o líquido interno é usado para isolar o vírus,
mas os embriões e o resto dos ovos também ficam infectados. Normalmente,
segundo Raw, o material é triturado e aquecido a uma temperatura de 100 ºC. O
resultado é um líquido, que deverá ser depositado em um aterro biológico.
"É um processo que teremos de aprender", diz o cientista.
O
produto final da vacina contém apenas as proteínas da capa do vírus, e não o
vírus vivo nem o seu material genético (RNA). Os testes com animais deverão
ter início imediatamente após a abertura da fábrica e os testes clínicos,
com seres humanos, dois meses depois. Segundo Raw, não será necessário que as
pessoas fiquem em isolamento. "Elas não vão ficar gripadas, porque não há
vírus na vacina", explica. "No máximo, poderão ter uma pequena reação,
como ocorre às vezes com a vacina comum."
Segundo Raw, o Brasil será o primeiro país a fabricar a vacina no Hemisfério Sul - a
Austrália também produz, mas em pequena escala. A estratégia é criar um
estoque mínimo que sirva como linha de frente caso algum foco da doença seja
detectado no País. A intenção não é vacinar toda a população, mas pessoas
que possam ter tido contato com o vírus.
O
Butantã também fará pesquisas para baratear a vacina. Uma preocupação que,
segundo Raw, não existe nos laboratórios privados dos países ricos.
Vírus
é geneticamente modificado
O
vírus recebido pelo Butantã é uma versão geneticamente modificada em laboratório
do H5N1 que está matando aves e pessoas na Ásia. Ele sofreu uma alteração no
seu material genético (RNA) que retira três aminoácidos das proteínas de sua
capa viral. Ou seja, é um organismo geneticamente modificado (OGM).
Isso
levanta a possibilidade de o vírus ter de passar pela aprovação da Comissão
Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). O secretário-executivo da CTNBio,
Jairon Santos do Nascimento, disse que não tem conhecimento de que o vírus
seja geneticamente modificado, mas que, se for, terá de passar pela comissão.
Isaias Raw destacou que apenas as proteínas do vírus são usadas na vacina.